segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

sábado, 16 de janeiro de 2010

Curiosidade #1

Quanto um candango que se locomove de carro deve andar por dia?
Uns 800 metros? Talvez, 1 km.
Vamos pensar: o negócio é levantar, se arrumar, entrar no carro, ir ao trabalho, voltar do trabalho e dormir.
Mesmo que haja uma saída pro almoço e/ou uma saída noturna, a caminhada não deve passar de 1 km.

Agora, vamos à pergunta: o que acontece com esse candango quando ele passa a caminhar algo entre 7 e 11 km por dia (usei o google earth para estimar)?
Eu tenho a resposta.

Minhas pernas estão na miséria. Tô com uma dor muscular que não passa por nada.
Os pés incham e o tornozelo também dói um pouco.

Falta de costume é fogo. O duro é que, quando estiver acostumado, voltarei pros 700/800 metros de um candango ordinário.
Bom, hora de caminhar mais um pouco.
Por aqui, isso pode ser feito com bastante tranquilidade a qualquer hora.

Conheci San Isidro, o outro bairro badalado daqui.
Fui andando, claro.
Bem bonito. Bastam 5 minutos pra perceber que é o bairro mais nobre da cidade.
A Avenida Conquistadores está para San Isidro como a Oscar Freire está para os Jardins Paulistas.
Tá, a comparação pode ser um pouco desproporcional, mas funciona.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Entre caminhadas e pimenta

Quase todos os pratos locais levam pimenta.
E nem rola uma descrição no cardápio.
Galera trata como se fosse óleo vegetal.
Ou seja, nada de avisar.
Dá-lhe coca light ou cerveja.
Por enquanto, tem sido o jeito.

Tomei o tal do pisco. Pisco sour na verdade. Gostosinho.
A galera não é muito fã de cerveja por aqui.
O negócio é pisco mesmo. Pedi uma cerveja e a moça perguntou se eu queria gelada.
WTF?, pensei. Galera serve cerveja quente, cara. De lascar.

As caminhadas noturnas têm sido gratificantes.
O local é bem tranquilo. Orla, parques, praças, todos cheios de gente, bem iluminados e disponíveis à noite.

Comprei chá de coca. Fica pra um outro relato.
Hora de decidir se Mancora, Cuzco e Machu Pichu farão parte da programação.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Lima - parei de contar os dias

Fiz o tour do Porto daqui.
Longo e bem militaresco. Foi legal, mas não curti tanto.
História militar não é bem um interesse.
Entrar num submarino foi legal no entanto. Meio estranho, mas interessante.



Tô pensando em mudar de hotel pra economizar um pouco mais.
Mas isso provavelmente significaria sacrificar a internet.
De todo modo, já paguei uma boa parte.
De repente, faço a mudança nos últimos 10 dias.
Já é uma economia.

Vi as feiras artesanais. Ficam em Miraflores mesmo.
Elas se concentram em uma região específica.
Uma delas se chama Indian Market. Só dá turista.
Feira de artesanato não é comigo. Desta vez, achei bom ter ido sozinho.
Entrei, circulei e saí. Nada poético, mas achei ótimo. Não tive que ficar esperando ninguém olhar tenda por tenda. Yeah!
Muito cacareco. Além de serem terríveis de transportar, não têm aquele apelo.
Os gorrinhos não me encantam, tampouco as bijus ou mantas.
Prefiro ímãs de geladeira, mouse pads ou stickers como souvenirs. Cabem dentro de uma pasta pequena e podem ser razoavelmente bem pensados.

Já descobri como descer até o Pacífico. Assim que abrir o sol (desde que cheguei, só abriu uma vez), vou, pelo menos, molhar os pés. As praias de Lima não atendem bem aquele conceito de areia e sol. São bonitas, mas estão mais pra pedra e nuvem. São águas que interessam mais aos surfistas. De todo modo, vou conferir.

The Office é bem engraçado mesmo.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Mais um dia, mais um dólar (na verdade, alguns dólares)

Tô um trapo.
Nem me lembro quando foi a última vez que andei tanto.
Fiz o tour pelo centro. Bem legal.
Visitei as catacumbas de alguns padres franciscanos.
Cenário de pesadelo. Sobraram as caveiras e alguns ossos.
O que deu mais agonia foi um osso perfurado por um prego.
Imagino se isso aconteceu enquanto a pessoa estava viva.



Depois, resolvi caminhar pelo litoral de Miraflores.
Que grata surpresa. Tudo muito bonito e organizado.
Diversos parques bem arborizados e com muitas opções de diversão.
Além do shopping perto do litoral, há quadras de tênis, praças, parapente, ciclovia.
Enfim, muito espaço para relaxar e curtir o Pacífico.
Muitas pessoas se exercitando, outras tantas lendo, algumas dormindo no gramado.
Tudo bem plácido e harmonioso. Há um senso de comunidade que não percebo em Brasília.
Bom, isso é papo pra outra hora. Enfim, fiquei impressionado.



Ah, comi o tal do "ceviche", o prato típico da região.
Quase tive um troço. Nem sei se é bom ou ruim, pois parei depois da terceira garfada.
O negócio é que não me dou com pimenta. Sei que é um tempero apreciado e tal, mas não dou conta.
Sou fraco. Um pouquinho de pimenta e cuspo fogo.
Nossa, coloquei a comida na boca e todo o processo começou: a língua ardeu, o corpo suou, os olhos lacrimejaram...
Ainda tentei mais 2 garfadas. Pra quê? Quase cuspi fogo. Dispensei o prato.
Como se diz por aqui: "ceviche pica".
Para salvar o dia, comi sushi agora há pouco. Aí não tem erro. Só alegria! Bom pra caramba.

Ah, descobri que os eletrônicos têm um bom preço por aqui.
Massa!

Lima - Dia 4

Primeira sexta-feira.
Fiz uma escolha bem óbvia: peguei um ônibus de turismo.
Acredito que a melhor maneira de conhecer uma cidade é a pé, mas o tour me deu uma boa ideia de por onde andar.
Sem contar que foi em um ônibus cujo segundo andar é aberto. Foi bem legal.
Farei, oportunamente, o tour pelo centro da cidade e o tour noturno.



Hora de programar o final de semana.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Lima - Dia 3



Preciso confessar algo: até hoje, ainda não tinha comido nada da região.
No meu primeiro dia, comi na pizza hut. No segundo, no burguer king.
Nada contra a comida local, mas a fome me levou a escolher o mais tradicional.
Hoje, iniciei meu projeto de comer todo dia em um lugar diferente (que não seja um fast food famoso).

Depois do trabalho, sentei-me à mesa de um restaurante especializado em frutos do mar.
Não pestanejei: escolhi o "risotto de camarones".
Delicioso! Tão bom que não percebi o tamanho da porção. Só pensava na próxima garfada.
Resultado: mal consegui caminhar até o hotel depois do almoço.
Consequência: não rolou de bater perna por aí.
Moral da história: por 44 soles (uns 26 reais), comi um risoto fantástico (cuidado, dudu camargo), além de ter tomado uma cusqueña.

Depois da demorada ação das minhas enzimas, resolvi conhecer o outro lado de Miraflores.
Deparei-me com uma praça fantástica.
Nela, um belo cinema.
Sem planejar, entrei e assisti Sherlock Holmes. Gostei mais dos trailers (Invictus, Iron Man 2 e Up in the air).

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Lima - Dia 2


Eu ia escrever sobre algo relativamente simples, mas que significa muito pra mim.
Finalmente, depois de várias tentativas, aprendi a dar nós de gravata sozinho.
Chega de deixar as gravatas no armário com nós prontos.
Nada como aprender "na marra".
É o tipo do conhecimento mundano que faz uma baita diferença.
Uma hora ia chegar lá.


Bom, eu ia escrever sobre meu novo conhecimento, mas não vou me estender no assunto.
Outro evento acabou ofuscando a história das gravatas.
Afinal, hoje vi o Pacífico!
O tempo em Lima é pra lá de peculiar.
Sempre nublado, mas não chove.
Por isso, eles têm um shopping a céu aberto em frente ao mar.
Pra lá de único.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Lima - Dia 1

1º dia em Lima.
Foram tantas emoções.

Vou por tópicos.

"Avión"

Antes de embarcar, aquele medo que tomou conta de quem entra num avião.
A longa viagem serviu para confirmar uma suspeita: viagem boa é viagem de madrugada.
A privação de sono da noite anterior acabou me fazendo dormir por algumas horas.
Escutar ipod (ao invés dos barulhos esquisitos do "avión") e assistir The Big Bang Theory me ajudaram bastante.
No fim das contas, 2 voos pra lá de tranquilos.

Lima

Não tenho como saber bem, mas gostei do que vi.
Miraflores é um bairro pra lá de interessante.
Muitos restaurantes e muitas (mas muitas) casas de câmbio e agência de viagens.
É impressionante como a cidade parece talhada pra turista. Em cada esquina, há um cajero automático/ATM com opções de saque em soles (moeda local) e dólares americanos.
Ao sacar 100 dólares há pouco, percebi a grana que perdi comprando dólar no Brasil.
Comprei 3 vezes com câmbios que variaram de 1.84 a 1.90.
Hoje, ao sacar 100 dólares, o câmbio considerado foi de 1.72. Como não há casa de câmbio, não há margem de lucro.
O BB processa a compra e faz a conversão com a cotação do dia. Nem calculei quanto perdi. Nesse caso, quem converte não se diverte mesmo.
Final de semana, vou bater perna pelo bairro. Vou conhecer o Pacífico.

Comida

Nem comi direito, mas o tempero daqui é bom.
Nossa, a supreme da Pizza Hut tava divina. E a ensalada? Esqueci de perguntar que molho era aquele.
Tava tão boa que nem liguei para o repolho.
Outra coisa me chamou a atenção: o suco de laranja de caixinha. Minha nossa senhora!
É bom demais. Não tem aquele gosto pra lá de artificial das caixinhas tupiniquins.

Fui ao mercado e comprei dois itens que serão experimentados em breve. Ei-los (junto com a coca de 410 ml e o suco show de bola):



Trânsito

Já vi que não vai rolar de pegar ônibus.
Os carros são muito velhos (tanto os de transporte público quanto os de passeio).
Não há tantos carros, mas o trânsito é bem caótico. Parece que nada é proibido.
Até agora, não entendi os cruzamentos. Todos podem ir para todos os lados. Bem estranho e ruim de atravessar a rua.
O negócio vai ser caminhar (que é o melhor jeito de conhecer uma cidade mesmo).



Portuñol

Olha, eu até me surpreendi.
Não tive muita dificuldade de compreensão.
Duro mesmo é falar sem ter fluência.
No fim, todos sobreviveram. Consegui me alimentar. Então, tá tudo bem.
Estou assistindo um monte de coisa com áudio em espanhol ou áudio em inglês e legenda em espanhol. Falando nisso, vou assistir Sherlock Holmes por aqui. A estreia será "en 7 de enero" (é o que diz um outdoor por aqui).

Hotel

Grata surpresa.
O preço é mediano.
O quarto é excelente.
Amplo, com sala, banheiro espaçoso, closet e tudo mais.
Gostei bastante.
E o acesso à internet é providencial.



O sono chegou. 00h no Brasil. 21h aqui. Hoje, o dia foi enorme.

Em Lima

Parei com blogs há séculos.
Por um momento, pareciam ideais.
Com o tempo, abandonei.
Encontrei mais sentido em outras coisas.

Agora, em Lima por 1 mês, a ferramenta me parece, mais uma vez, uma boa alternativa.
Posso relatar as coisas sem ter que padecer do mal da repetição.
Ao invés de 10 e-mails, um post.

Sei lá. Vamos ver se vinga.

sábado, 16 de maio de 2009

Write me back, fucker


Sutil, não? I mean: write me back, fucker?

Outros tempos. Nada muito subversivo.
Passava muito tempo escutando Sleater-Kinney.
Música delas (write me back, fucker). Nome apropriado para um blog, logo pensei.

Afinal, nunca acreditei muito naquele/a que cria um blog e nenhum comentário espera.
Internet, informação, publicidade, conectividade, interatividade, espaço de acessibilidade... Ah, deu para entender.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

HO HO HO HO HO!!!

Willie: Jesus, kid. When I was your age, I didn't need no fucking gorilla. And I wasn't as big as one of your legs. Four kids beat me up one time and I went crying home to my daddy. You know what he did?

Kid: He made it all better?

Willie: No, he kicked my ass. You know why?

Kid: Because you went to the bathroom on mommy's dishes?

Willie: What the fuck? No!

Kid: He tried to teach you not to cry and be a man?

Willie: No. It's because he was a mean, drunk, son of a bitch. And when he wasn't busy busting my ass, he was putting cigarettes out on my neck. The world ain't fair. You've gotta take what you need when you can get it. You've gotta learn to stand up for yourself. You have to stop being a pussy and kick these kids in the balls or something.

_____________________

Diálogo retirado do filme "Bad Santa".
Assim como com várias outras coisas, preciso de doses, no mínimo, esporádicas de humor deturpado - aquele que se permite brincar com alguns tabus. É bom ver esse canal aberto de vez em quando.

quarta-feira, 12 de abril de 2006

Fugindo da costumeira verborragia!

Ces't la vie.

Faceiro e lúdico, era como esta criança serelepe se sentia em relação ao fato de não ter cometido nenhum impropério com seu recém-adquirido ornamento na orelha. "Cuidado na hora de tirar a camisa", advertiu-me uma brilhante companheira de aventuras. "A hora de passar o xampu é a pior", advertiu outro sábio. Sentia-me dono da situação, sem dor e sem acidentes. Eis que surge um

O relato:

Recolhi-me ao meu leito um pouco mais tarde que o de costume. Tomei as precauções necessárias para não encostar o transversal contra o travesseiro. No entanto, essa sazonalidade brasiliense trouxe consigo alguns dos bichinhos mais enervantes do planeta, os pernilongos. Astuciosamente, usei as cobertas para me proteger de suas intrépidas picadas. Contudo, os desgraçados começaram a empreender vôos rasantes por cima da minha desprotegida, e já perfurada, orelha. Eu, na minha tentativa de dormir, ouvia aquele enlouquecedor zum zum perto dos meus ouvidos. Não tive dúvidas. "Pegarei o bostengo na próxima", pensei.

Quando ouvi o barulho novamente, não pensei e agi: dei uma mãozada na minha orelha. Pense numa sessão bem caprichosa de maledicências, palavrões e correlatos que se seguiu. Acho que acordei os vizinhos.

Então, mesmo cauteloso, acabei na frente do espelho, em plena madrugada, fazendo higiene do local e avaliando danos. E o pior? Nem sei se matei a vadia. "Mas é um pernilongo", poderiam pensar. Não importa. Vadia é o melhor xingamento do mundo.

sábado, 25 de março de 2006

estréia com grande convidado, ainda que repetido...

Pois então... venho já atrasado fazer meu "debu" nessa birosca aqui (com todo o respeito, já que dos melhores lugares q eu já fui eram excelentes biroscas). e vou começar copiando a Ju, convidando meu duas vezes xará, o Fernando Pessoa (pra quem não sabe, tb era Fernando Antônio, como eu) pra falar por mim. isso sempre fez um bocado de sentido pra mim... que vcs acham?

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.



então, por enquanto é isso pessoal!

Fernando Antônio Tollendal, o cara que gosta de parênteses e de colocar coisas depois do nome.

quinta-feira, 23 de março de 2006

Um pouco de Fernando Pessoa

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


ANÁLISE

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.


quinta-feira, 9 de março de 2006

Crianças...

Oito anos

Por que você é Flamengo
E meu pai Botafogo?
O que significa
"Impávido colosso"?

Por que os ossos doem
Enquanto a gente dorme?
Por que os dentes caem?
Por onde os filhos saem?

Por que os dedos murcham
Quando estou no banho?
Por que as ruas enchem
Quando está chovendo?

Quanto é mil trilhões
Vezes infinito?
Quem é Jesus Cristo?
Onde estão meus primos?

Por que o fogo queima?
Por que a lua é branca?
Por que a terra roda?
Por que deitar agora?

Por que as cobras matam?
Por que o vidro embaça?
Por que você se pinta?
Por que o tempo passa?

Por que que a gente espirra?
Por que as unhas crescem?
Por que o sangue corre?
Por que que a gente morre?

Do que é feita a nuvem?
Do que é feita a neve?
Como é que se escreve
Réveillon?

Adriana Calcanhoto

A lógica pura e simples das crianças. Desprovida dos sensos morais limitadores, tão característicos dos seres humanos adultos. Lógica ainda imaculada e inocente. Interessantíssimas essas pequenas criaturinhas...
É o meu segundo post sobre crianças, sobre filhos. Não. Não estou querendo ter filhos... Tão melhor aprender e se divertir com os filhos dos outros!! Quase não consigo conceber a responsabilidade de criar uma nova cabeça. Pais criam mentalidades. A amplitude disso é imensa!
E se algum dia perguntarem se tive filhos, a provável resposta será:

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas

quarta-feira, 1 de março de 2006

José

E agora, José?
A festa acabou,
A luz apagou,
O povo sumiu,
A noite esfriou,
E agora, José?
E agora, você?
Você que é sem nome,
Que zomba dos outros,
Você que faz versos,
Que ama, protesta?
E agora, José?

Está sem mulher,
Está sem discurso,
Está sem carinho,
Já não pode beber,
Já não pode fumar,
Cuspir já não pode,
A noite esfriou,
O dia não veio,
O bonde não veio,
O riso não veio,
Não veio a utopia
E tudo acabou
E tudo fugiu
E tudo mofou,
E agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
Seu instante de febre,
Sua gula e jejum,
Sua biblioteca,
Sua lavra de ouro,
Seu terno de vidro,
Sua incoerência,
Seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
Quer abrir a porta,
Não existe porta;
Quer morrer no mar,
Mas o mar secou;
Quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
Se você gemesse,
Se você tocasse
A valsa vienense,
Se você dormisse,
Se você cansasse,
Se você morresse...
Mas você não morre,
Você é duro, José!

Sozinho no escuro
Qual bicho-do-mato,
Sem teogonia,
Sem parede nua
Para se encostar,
Sem cavalo preto
Que fuja a galope,
Você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade


O poema é auto-explicativo e dispensa comentários da minha parte.
Uma das mais belas poesias da literatura brasileira, sem dúvida. E não me venham com a tal brasilidade, a identidade do povo brasileiro. Esse texto é muito mais que isso.
Para tentar sacudir a poeria desse blog, que está mais parado que o paulo engessado.



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Quando o amor sucumbiu à paixão: ensaio sobre o comportamento monogâmico na contemporaneidade

Conceitos como amor e paixão costumam ser complementares, contudo suas peculiaridades clamam por discernimento. Paixão é factível, perceptível e constatável. A taquicardia, o suor frio, o nervosismo, há um amalgamado de indícios que comprovam a existência de um estado emocionalmente diferenciado. Amor, entretanto, tende a ser um conceito mais amplo, digno de discussões platônicas ante ao banquete. A noção de amor, por mais que seja difundida e até mesmo reproduzida socialmente, encontra sua versão mais frutífera na ponderação individual-filosófica do que é tido como estrutura edificante para uma relação.

Paixão e amor nem sempre se relacionam como seqüências lógicas de uma relação. Um casal apaixonado é diferente de um casal que se ama; contudo, um casal que se ama pode ser um casal apaixonado e um casal apaixonado pode ser um casal que se ama, mas não necessariamente o são; não é certo que um casal apaixonado desperte uma noção maior e menos imediatista de amor, bem como o casal que se ama pode ter experimento larga diminuição em seus ímpetos de paixão.

Por um momento, pode-se dizer que a instituição casamento encontra-se em crise, contudo tal afirmação tem caráter dúbio. O número de casamentos e reservas de espaço para realização de cerimônias e festas ainda é assombroso; questionável é a capacidade que os matrimônios têm de se manterem.

Tomar alguém como parceiro de vida tornou-se algo assustador. Outros caminhos são exteriorizados como opção ao casamento ou na fase anterior a sua inevitabilidade. Em face ao jogo de sentimentos e perspectivas de uma relação duradoura, muitos se lançam em relacionamentos de curto prazo ou abertos, cujo intuito é maximizar os prazeres carnais sem a necessidade de criação de vínculos afetivos mais densos.

A lógica de uma sociedade de consumo acaba se prostrando em diversos níveis de realidade. Aquisição tem sido conceito chavão, que acaba se estendo às ponderações acerca de relacionamentos amorosos. Por que ter o bom se o melhor pode ser encontrado? A procura por pacotes fechados, próximos dos gostos individuais, foi declarada, mesmo que seja uma busca anacrônica. Contudo, ao menos na aparência, os atributos podem ser encontrados de forma ideal. O comprometimento não está em voga, e muitos são os discursos que distanciam os indivíduos de relações formais.

O questionamento a ser feito, no entanto, é se relações que fogem à convencionalidade podem sobreviver em meio a uma sociedade que prega valores monogâmicos. Mais do que isso, até que ponto nossos processos de socialização primários não mexem com o nosso brio em se tratando de uniões afetivas. Parece-me que tentativas de relacionamento aberto acabam se frustrando na gênese de uma paixão, sentimento amplamente carregado de uma vontade de compartilhar privacidade com um parceiro. Será possível que consigamos nos apaixonar por mais de uma pessoa ao mesmo tempo ou o sistema de monogamia seriada continua mais apurado para o nosso modelo de sociedade?

O amor, concebido como estrutura de longevidade e cumplicidade, não consegue mais competir com a inebriante sensação de estar apaixonado? Talvez, nem seja o caso; é possível que, em virtude de tantos desencontros, experimentar seja o estágio probatório de uma relação frutífera. Contudo, há algo de estranho. O casamento mantém sua força, mas não sua durabilidade de uma maneira geral. Será possível que a perspectiva de tentar novamente faz com que não tentemos o suficiente com o parceiro definido? Difícil discernir o ponto da perda, ou seja, até onde devemos insistir ou desistir de uma relação. Apenas, nesse ínterim, sou tomado por uma sensação de que estruturas e densidade emocional vem sucumbindo perante símbolos, pseudo-relações e tipificações do que se pensa ser compatibilidade.

___

Outro dos meus textos inacabados. Espero que Richard Dawkins me ajude!

Paulo.



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

A Transformação da Intimidade

"Nos relacionamentos gays, tanto masculinos quanto femininos, pode-se testemunhar a sexualidade completamente desvinculada da reprodução. A sexualidade das mulheres gays forma-se a partir de uma necessidade e está quase totalmente relacionada às implicações observadas no relacionamento puro. Ou seja, a plasticidade da resposta sexual é canalizada, acima de tudo, por um reconhecimento dos gostos dos parceiros e sua opinião sobre o que é ou não agradável e tolerável. O poder diferencial pode ser restabelecido por uma inclinação, por exemplo, para o sexo sadomasoquista. Uma mulher diz:

Eu gosto do sexo bruto, apaixonado, porque ele ultrapassa as barreiras da "pureza" que tantas mulheres controem em torno de si. Não há a sensação de contenção, tão freqüente com o sexo delicado, politicamente correto - "S e L", como uma de minhas amigas o apelidou (ou seja, sweetness and light, suave e leve). Minha aual amante e eu experimentamos algumas vezes sadomasoquismo e sujeição, e achamos muito excitante. Tudo o que temos feito tem sido totalmente consensual, e a "dominada" (que varia) tem sempre controle acompanhado da ilusão de estar fora do controle. Temos incluído coisas como espancamento, açoitamento, puxar os cabelos e mordidas, mas nunca a ponto de ferir ou mesmo de marcar. O que torna isso tão bom é a sensação de completo desprendimento.
Seria possível observar-se aqui o retorno do falo, e de uma forma um tanto odiosa. Até certo ponto isso pode ser correto, mas poderia ser também proposta uma interpretação diferente. Em relacionamentos lésbicos (assim como também entre os homens gays), as atitudes e as peculiaridades "proibidas" no relacionamento puro podem influenciar potencialmente, incluindo o controle intrumental e o exercício do poder formal. Confinado à esfera da sexualidade e transformado em fantasia - em vez de ser determinado pelo exterior, como habitualmente sempre ocorre -, o domínio talvez auxilie a neutralizar a agressão, que de outro modo se faria sentir em outra parte.

Como em outros aspectos, aquilo que poderia parecer uma característica retrógrada dos relacionamento sexuais mulher-com-mulher, realmente, poderia proporcionar um modelo para a atividade heterossexual eticamente defensável. O sadomasoquismo consensual não precisa ser apresentado como uma receita para a experiência sexual compensadora, mas o princípio que ele expressa é suscetível à generalização. A sexualidade plástica poderia tornar-se um
a esfera que não mais contivesse os detritos das compulsões externas e, em vez disso, assumiria o seu lugar como uma dentre outras formas de auto-exploração e construção moral. Talvez aqui possa ser descoberto um siginificado nos escritos de Sade, completamente diferentes daqueles em geral sugeridos. Em Sade, o poder, a dor e a morte investem-se inteiramente de sexo e são exercidos através da perversão. O falo domina tudo e a sexualidade é despojada de qualquer vestígio de ternura - ou assim parece. Mas Sade separa inteiramente a sexualidade feminina da reprodução e festeja a sua fuga crônica a partir da subordinação a interesses fálicos. Sua representação do sexo, que concetra tudo o mais dentro dele, poderia ser vista como um estratagema metafórico irônico, indicando a inocência da própria sexualidade."

Trecho de "A Transformação da Intimidade" do sociólogo Anthony Giddens.

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Respeitar demais tudo que é julgado diferente (ou se afastar) é se abster da tentativa de compreender. Ademais, buscar as bases de um fenômeno não implica sua assimilação! Do contrário, caso não seja nossa fantasia ou interesse privado, apenas reproduziremos comportamentos exteriores.