
T E N S O

Faceiro e lúdico, era como esta criança serelepe se sentia em relação ao fato de não ter cometido nenhum impropério com seu recém-adquirido ornamento na orelha. "Cuidado na hora de tirar a camisa", advertiu-me uma brilhante companheira de aventuras. "A hora de passar o xampu é a pior", advertiu outro sábio. Sentia-me dono da situação, sem dor e sem acidentes. Eis que surge um
O relato:
Recolhi-me ao meu leito um pouco mais tarde que o de costume. Tomei as precauções necessárias para não encostar o transversal contra o travesseiro. No entanto, essa sazonalidade brasilien
se trouxe consigo alguns dos bichinhos mais enervantes do planeta, os pernilongos. Astuciosamente, usei as cobertas para me proteger de suas intrépidas picadas. Contudo, os desgraçados começaram a empreender vôos rasantes por cima da minha desprotegida, e já perfurada, orelha. Eu, na minha tentativa de dormir, ouvia aquele enlouquecedor zum zum perto dos meus ouvidos. Não tive dúvidas. "Pegarei o bostengo na próxima", pensei.
Quando ouvi o barulho novamente, não pensei e agi: dei uma mãozada na minha orelha. Pense numa sessão bem caprichosa de maledicências, palavrões e correlatos que se seguiu. Acho que acordei os vizinhos.
Então, mesmo cauteloso, acabei na frente do espelho, em plena madrugada, fazendo higiene do local e avaliando danos. E o pior? Nem sei se matei a vadia. "Mas é um pernilongo", poderiam pensar. Não importa. Vadia é o melhor xingamento do mundo.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
então, por enquanto é isso pessoal!
Fernando Antônio Tollendal, o cara que gosta de parênteses e de colocar coisas depois do nome.
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Paixão e amor nem sempre se relacionam como seqüências lógicas de uma relação. Um casal ap
aixonado é diferente de um casal que se ama; contudo, um casal que se ama pode ser um casal apaixonado e um casal apaixonado pode ser um casal que se ama, mas não necessariamente o são; não é certo que um casal apaixonado desperte uma noção maior e menos imediatista de amor, bem como o casal que se ama pode ter experimento larga diminuição em seus ímpetos de paixão.
bido como estrutura de longevidade e cumplicidade, não consegue mais competir com a inebriante sensação de estar apaixonado? Talvez, nem seja o caso; é possível que, em virtude de tantos desencontros, experimentar seja o estágio probatório de uma relação frutífera. Contudo, há algo de estranho. O casamento mantém sua força, mas não sua durabilidade de uma maneira geral. Será possível que a perspectiva de tentar novamente faz com que não tentemos o suficiente com o parceiro definido? Difícil discernir o ponto da perda, ou seja, até onde devemos insistir ou desistir de uma relação. Apenas, nesse ínterim, sou tomado por uma sensação de que estruturas e densidade emocional vem sucumbindo perante símbolos, pseudo-relações e tipificações do que se pensa ser compatibilidade.
cionamentos gays, tanto masculinos quanto femininos, pode-se testemunhar a sexualidade completamente desvinculada da reprodução. A sexualidade das mulheres gays forma-se a partir de uma necessidade e está quase totalmente relacionada às implicações observadas no relacionamento puro. Ou seja, a plasticidade da resposta sexual é canalizada, acima de tudo, por um reconhecimento dos gostos dos parceiros e sua opinião sobre o que é ou não agradável e tolerável. O poder diferencial pode ser restabelecido por uma inclinação, por exemplo, para o sexo sadomasoquista. Uma mulher diz:
Seria possível observar-se aqui o retorno do falo, e de uma forma um tanto odiosa. Até certo ponto isso pode ser correto, mas poderia ser também proposta uma interpretação diferente. Em relacionamentos lésbicos (assim como também entre os homens gays), as atitudes e as peculiaridades "proibidas" no relacionamento puro podem influenciar potencialmente, incluindo o controle intrumental e o exercício do poder formal. Confinado à esfera da sexualidade e transformado em fantasia - em vez de ser determinado pelo exterior, como habitualmente sempre ocorre -, o domínio talvez auxilie a neutralizar a agressão, que de outro modo se faria sentir em outra parte.
a esfera que não mais contivesse os detritos das compulsões externas e, em vez disso, assumiria o seu lugar como uma dentre outras formas de auto-exploração e construção moral. Talvez aqui possa ser descoberto um siginificado nos escritos de Sade, completamente diferentes daqueles em geral sugeridos. Em Sade, o poder, a dor e a morte investem-se inteiramente de sexo e são exercidos através da perversão. O falo domina tudo e a sexualidade é despojada de qualquer vestígio de ternura - ou assim parece. Mas Sade separa inteiramente a sexualidade feminina da reprodução e festeja a sua fuga crônica a partir da subordinação a interesses fálicos. Sua representação do sexo, que concetra tudo o mais dentro dele, poderia ser vista como um estratagema metafórico irônico, indicando a inocência da própria sexualidade."

indouras;
uma fatia de toicinho. Vergado pelo peso dos grilhões e desventuras, o herói cai sobre sua cama de palha; na cena seguinte, seu fiel escudeiro, sem saber da desgraça de seu amo, regala o auditório com uma canção cômica. Assistimos, ansiosos, ao rapto da heroína por uma barão orgulhoso e cruel; com a virtude e a vida igualmente em perigo, ela saca um punhal para defender esta à custa daquela, e, precisamente quando nossa emoção atinge o ponto mais alto, ouve-se um apito e somos imediatamente transportados ao salão nobre do castelo, onde um senescal de cabelos grisalhos entoa uma canção picaresca em coro com um grupo de vassalos ainda mais picarescos, daqueles que se encontram em toda espécie de lugares, das naves das igrejas aos palácios, e que vagueiam juntos, sempre cantando.


Boa parte da educação de uma criança , no Brasil, é baseada na idéia de reproduzir. Reproduzir exercícios, pensamentos e contas.